22 janeiro 2010

No smoking, please

Pouco antes de vir para a Macedónia pela primeira vez encontrei-me com um Português que havia estado cá alguns meses antes e que me deu algumas dicas sobre o país e as suas gentes. E uma das coisas mais acertadas que ele me disse foi que a Macedónia era um país com uma vincada cultura de café e tabaco. Isto é algo que mesmo um turista acabado de chegar ao país constata facilmente: os cafés estão constantemente cheios e a maior parte das pessoas que os enchem são fumadores. Enquanto que o café é uma herança dos 500 anos de ocupação otomana, já o tabaco tem raízes mais profundas, visto que é uma das principais produções nacionais. É tão importante que está mesmo presente no escudo nacional. Posto isto, e tendo em conta que o país tinha já uma lei que obrigava todos os espaços públicos a terem áreas específicas para fumadores e não-fumadores, foi com alguma surpresa que se assistiu à homolgação de uma nova lei que bane por completo a possibilidade de se fumar num espaço público fechado.
Naturalmente, os donos de restaurantes e cafés manifestaram-se contra a lei, alegando que muitas pessoas deixarão de ir ao café com a mesma regularidade se não puder fumar. As manifestações destes empresários não foram muito agressivas mas as suas críticas não cairam bem ao Governo e à Câmara de Skopje, que de imediato retaliaram. A maior parte dos cafés do centro de Skopje aproveitaram os passeios (em zonas pedonais, portanto, bastante alargados) para montarem as suas esplanadas, mas fizeram-no sem a devida autorização das autoridades, embora com a sua conivência. A troco de assobiarem para o lado, os políticos esperavam silêncio e obediência (uma prática comum na política cá do burgo). Curiosa coincidência, quando os donos destes cafés levantaram a voz contra a nova lei do tabaco, a Câmara de Skopje decidiu avançar para a remoção dos espaços das esplanadas de Skopje.


A esplanada do Café del Fufo, na praça central de Skopje

Não coloco em causa a justeza da decisão da Câmara; os donos destes cafés retiravam lucro de um espaço público sem nada pagarem em troca. Peca, apenas, por tardia. O que me aborrece, naturalmente, são estes jogos sujos e politiquices baratas, da lógica de uma mão lava a outra e o contribuinte que se lixe. Mais: a Câmara avançou para a remoção destes espaços sem aviso prévio e sem dar a possibilidade aos proprietários de chegarem a acordo para a utilização dos mesmo com a Câmara, como manda a lei. Com o tempo que levo por cá este tipo de coisas já não me espanta, já sei bem o que a casa gasta, mas enerva-me ver o país nas mãos de pessoas sem escrúpulos, que olham para todas as situações apenas do ponto de vista do benefício pessoal e que vão, dia após dia, enterrando o país um pouco mais na lamice dos jogos de poder que são, no fundo, a única coisa que estes políticos sabem fazer.

17 janeiro 2010

Stranger in a familiar land


Estive de férias. Férias do trabalho, do corre-corre, do não ter tempo pra nada e até, imagine-se, da net, do Twitter, dos blogs. Senti-me desligado do mundo, mais do que gostaria (o que só vem provar a minha dependência cibernética para me manter informado) mas fez-me bem desligar a tomada. E fez-me bem voltar a casa, voltar aos rostos familiares, às paredes e corredores e divisões que conheço tão bem como me conheço a mim. Não sou muito apegado a este tipo de coisas e não coloco âncoras a mim próprio mas depois de ano e meio foi muito bom voltar.

No entanto, e tal como das outras vezes em que voltei depois de longas ausências, voltei a ter uma sensação estranha de já não pertencer àquele mundo. Tudo o que existe neste mundo é-me familiar, menos eu próprio. Como um puzzle em que a imagem que aparece na peça é precisamente a que falta, mas a peça não encaixa porque a forma não é a correcta. Basicamente, encontro-me num ponto em que vivo num constante choque cultural interior e tenho a sensação de que já não sei sentir-me em casa. Não sou de lá, mas de certa forma também já não sou de cá.

06 dezembro 2009

History in the making

É um pouco estranho sentir que se faz parte da História, mesmo que uma parte pequenina, e que se está a viver um momento verdadeiramente histórico, mas é assim que me sinto neste momento. As últimas semanas foram vividas com uma enorme intensidade na Macedónia, e não é para menos. Para além de finalmente ter desaparecido a necessidade de obter vistos para viagens inferiores a 90 dias para o espaço Schnegen, permitindo que os Macedónios possam, finalmente, viajar pela Europa sem terem de se sujeitar a um longo, caro, penoso e, bastas vezes, humilhante processo para obter o autocolante no passaporte, a Macedónia deu um passo enorme no processo de adesão à UE, ao obter a recomendação da Comissão Europeia para que se iniciem as negociações entre as duas partes. Momento histórico, para o qual podemos dizer, com uma ponta de orgulho, que fomos contribuindo com o duro trabalho de divulgação de informação e pressão sobre os agentes políticos envolvidos no processo. Suamos as estopinhas, mas valeu a pena.

O Sol de Vergina, símbolo do Império Macedónio

Naturalmente, esta recomendação fez com que o nosso trabalho aumentasse de volume, o que em parte (juntamente com outras coisas de que espero falar-vos ainda hoje) justifica a minha ausência dos posts. É que esta recomendação não passa disso mesmo e agora depende dos Estados-Membro seguir essa recomendação ou não. Amanhã, os Chefes de Estado e de Governo dos 27 vão reunir-se para decidir se o irão fazer ou não, sendo que paira sobre essa reunião a sombra da Cimeira de Bucareste. Passo a explicar: em Abril de 2008 a Macedónia apresentou-se nessa cimeira da NATO com a candidatura à organização, mas a sua entrada foi vetada pela Grécia, por causa da eterna questão do nome. Agora, é possível que isso venha a acontecer de novo.

O homem da discórdia: Alexandre o Grande

Seria triste se tal acontecesse, ver de novo o progresso do país emperrado por esta aberração de problema diplomático, mas é, ao que parece, o mais provável. A Macedónia e os Macedónios precisam que os processos de adesão às instituições internacionais se dê o mais rapidamente possível, mas os políticos locais, cegos pela popularidade que lhes dá bater o pé à Grécia, estão-se nas tintas para isso. Quem sofre, claro, são as pessoas, que iludidas pelo poder que tem o país ao não ceder às pretensões dos Gregos e agarradas a um pedaço de História com mais de 2 milénios, não parece sequer perceber o que está, aqui, em jogo. Amanhã poderia ser um ponto de viragem para o país, o início de uma nova era, mas dada a casmurrice de um país que vive mais de um passado distante do que do seu presente e futuro ficará, à partida, tudo na mesma. Dói trabalhar para o futuro quando toda a gente à nossa volta vive do passado, mas não poderemos baixar os braços só porque os outros o fazem. É mais duro assim? É, sem dúvida, mas quando os resultados aparecem podemos sempre orgulhar-nos de ter estado sempre na linha da frente.

11 novembro 2009

Castanhas e vinho

Hoje é dia de festa lá em casa! Vai um copinho? :D



E já agora uma fartura, para adoçar a boca!


Castanhas e vinho ainda arranjo por aqui, pois claro, mas tenho cá umas saudades das farturas... :(

24 outubro 2009

Portugal dos pequenitos

Estar longe de casa dá-nos a possibilidade de olharmos para o nosso ambiente natal de uma forma diferente, e leva-nos a apreciar coisas que antes nos passavam despercebidas. Estando longe de Portugal, aprendi a apreciar pequenos pormenores, deliciosos, que antes, por serem rotina, me passavam ao lado. Aprende-se a apreciar de forma diferente coisas grandes e pequenas; a distância torna-nos eternos enamorados daquilo que não podemos ter. Dito por outras palavras: a distância enamorou-me de Portugal.
Infelizmente todos os amores têm momentos de dúvida e angústia, e este não é excepção. O último par de semanas trouxe ao de cima algumas das coisas de que menos gosto no nosso país, aquilo a que chamo Portugal dos pequenitos, um país mesquinho, sombrio, da crítica (ou pior, do insulto) fácil, que ainda não saiu das grutas onde Viriato refugiava o seu povo dos invasores Romanos. É o país onde uma pessoa não pode ter uma opinião contrária, onde o debate se faz com paredes, onde somos ostracizados por pensar de forma diferente. É um país preso à mentalidade que o reinou durante séculos, fosse nos tempos das monarquias absolutistas ou das ditaduras fascistas.
Vem isto a propósito, está o leitor a adivinhar, da polémica em volta das declarações de Saramago sobre a Bíblia. Não escrevo isto por achar que ele está coberto de razão (apesar de achar que tem muita razão naquilo que disse) mas por achar que o ataque que lhe foi dirigido foi seco, brutal e sem o mínimo de respeito; respeito que era, curiosamente, o que os seus opositores lhe exigiam sobre a intocável - em Portugal se não é pelo menos parece - instituição que é a Igreja Católica. Este ataque foi de tal forma cego que muitas pessoas enxovalharam o novo romance do escritor sem sequer lhe pôr os olhos em cima, e muitas outras, incluindo, imagine-se, um eurodeputado!, exigiram (como se isso lhes competisse) que o escritor cumprisse a ameaça de renunciar à nacionalidade portuguesa. Depois do que o Estado Português lhe fez em 1991 admiro-o por ainda cá pôr os pés e dar alguma importância a um país e sociedade que o tratam desta forma.
Ao ler o rol de alarvidades que se escreve hoje em dia em resposta a Saramago, não consigo deixar de esboçar um sorriso ao lembrar-me de um certo inquisidor humorístico...
O artista é um bom artista; não havia nexexidade. Vamos lá a continuar, mas com juizínho...
Eles andam aí, os Diáconos Remédios...

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