07 agosto 2010

Mudanças

Fechei o tasco cá deste lado e esqueci-me de avisar. A minha nova casa bloguista está aqui. Até já!

24 junho 2010

The price of apathy

Who sleeps in democracy, wakes up in dictatorship.

Some days ago I stumbled on a poster with that sentence. I don’t know who said this, but it’s a reminder to all of us about what’s at stake when you fail to fight for your rights. Apathy and inaction are two choices that any informed and concerned society doesn’t have. If we want better lives, both socially and economically, for us and for our children, then we cannot sit in conformity waiting for things to get better. Sadly, I feel that this is exactly what happens in Macedonia.

I’ve been living in Macedonia for four years and in this period I cannot recall a single rally that gathered more than a few hundred people. The majority of the Macedonian society just doesn’t care, at least not enough to go out on the streets and stand for what they believe. Everyone seems to expect problems to solve themselves; everyone seems to think that their voice cannot make a difference.

I understand this deficit of democratic culture in Macedonia: we’re talking about a very young democracy, especially because never in the History of Macedonia there was a free democratic state in which people had the right to participate, to protest, to be heard. These things aren’t learned in a generation, or two. Even so, it is time for Macedonians to realize that they have the power to influence and change the course of events. A participative and informed civil society is the foundation of a developed country.

I don’t mean by this that Macedonia is heading towards a dictatorship (even though the new Law on Electronic Communications is something we should worry about); what I want to say is that apathy is a dangerous path, that leads nowhere good. Macedonia is at a crossroad, stuck between a distant past and a future that at times seems even more distant, and the decisions made now will make or break its future as a developed country, both economically and socially. It is up to us, to all of us, to step up and make a difference. The price of our apathy will be too high for Macedonia to pay.

Original text published on the blog EU Kauza.

04 junho 2010

The old blog, now for everyone


More than once people here in Macedonia have asked me why don't I write in my blog in English. It seems kind of an obvious thing to do, since I live abroad and the people that I share my days with don't speak Portuguese and might actually be interested in what I have to say about Macedonia. The answer is simple: the initial purpose of this blog was to share with my friends and family my views over a completely different country, people and culture (that might not be so different after all, but that's another story).

Well, after over a year of (very) irregular updates, I think that this might be the appropriate moment to take a turn and start writing also in English. Maintaining this page in Portuguese made things a bit easier for me, not only because it's my mother tongue but also because my (sometimes very critical) views over Macedonia and its politics were shadowed by an language un-understandable by most Macedonians. Writing in English will allow me to reach more people here and get a different kind of feedback. Since I'm a strong critic of the current government, especially in matters of foreign policy that touch so deep in the Macedonian heart, I don't expect for it all to be positive, but it's the extra interaction I'm looking for; I'll be here to take the bullets, if needs be. :)

Dos derrames e outra tragédias

Passam hoje 45 dias da explosão na plataforma Deepwater Horizon, ao longo da costa do Louisiana, nos Estados Unidos. Quando as primeiras notícias do incidente surgiram ninguém seria capaz de imaginar as consequências da mesma. A fuga de petróleo que sucedeu a explosão e afundamento da plataforma, descoberta dois dias depois, já causou danos irreparáveis no Golfo do México, e não há qualquer sinal que a BP esteja sequer perto de encontrar uma solução para o problema. Enquanto a escavação de dois túneis que permitam selar a fuga não é concluída (demorará em princípio mais dois meses) a companhia petrolífera tem tentado variadíssimas soluções para conter a fuga até a solução final estar pronta, sempre sem sucesso. Entretanto, o maior desastre ecológico da história dos Estados Unidos vai aumentando de dimensão, afectando centenas de espécies animais, bem com o ganha-pão de milhares de pessoas, da pesca ao turismo, passando até por plantações de arroz e açúcar.

Eu consigo perceber que a extracção de petróleo seja uma actividade perigosa, com riscos elevados e que por mais avançadas que sejam as tecnologias há sempre a possibilidade de algo correr horrivelmente mal. O que não sou capaz de perceber é como, perante o risco de um acidente deste género, as companhias petrolíferas não terem planos de emergência preparados para evitarem catástrofes deste género. Tendo em conta os lucros pornográficos apresentados todos os anos por estas empresas, recuso-me a acreditar que não haja meios para prever e combater este tipo de acidentes. Há meios; são é melhor empregues em prendas e benefícios para as entidades responsáveis por monitorizar o sector. Depois do acidente, vários elementos da Energy Information Administration demitiram-se quando vieram a público notícias sobre a promiscuidade entre esta entidade governamental e as companhias petrolíferas. Para milhares de pessoas e animais, estas demissões chegaram tarde demais.

Claro que a onda (no pun intended) de protestos contra a BP propagou pela net mais rapidamente do que o petróleo no Golfo. Desde alterações ao logo da companhia até uma falsa conta no Twitter em nome das relações públicas da BP vale de tudo para enxovalhar o grande responsável por este desastre. A internet, com todos os seus defeitos, tem esta enorme vantagem: pode-se efectivamente sentir o pulsar do mundo. Por muito que faça em termos de marketing, a BP nunca conseguirá limpar (once again, no pun intended) a sua imagem, especialmente porque há imagens que são difíceis de esquecer. Isto mesmo que os suspeitos do costume tentem ilibar a companhia pela sua óbvia responsabilidade. Sarah Palin, esse génio da política americana e paladina incansável das indefesas empresas petrolíferas, já veio dizer, numa pérola publicada no seu Facebook, que a culpa deste derrame é dos ambientalistas... =|

12 maio 2010

Eco-arquitectura de Vincent Callebaut

Embora seja um leigo na matéria, sempre acreditei haver uma diferença entre arquitectura e desenhar um edifício. Casas e prédios nascem todos os dias em ateliers de arquitectos por todo o mundo, mas a verdadeira arquitectura acontece quando encontramos algo que é capaz de nos agarrar as entranhas e deixar fascinado tanto pela sua beleza como pelo seu aspecto prático. Um arquitecto digno desse nome é alguém que é capaz de nos encantar, de nos fazer sonhar, de nos fazer acreditar que um dia o mundo inteiro irá ser o local idílico que eles desenham.
Vincent Callebaut é um desses arquitectos. Os seus projectos (que podem ver aqui) são um exemplo de como a arquitectura nos deve levar em frente para um futuro mais verde, ecológico e sustentável. Estes projectos provavelmente nunca irão passar do papel, mas os conceitos e ideias por detrás deles deverão ser trabalhados como base da arquitectura do futuro. Todos eles são belos e práticos, auto-sustentáveis e aprazíveis, combinando muitas vezes lazer e trabalho, num ambiente verde, limpo e, acima de tudo, natural.





11 abril 2010

Postais, postais, postais

Apesar de ser um tremendo geek, tenho uma pequena paixão pelo correio tradicional. É estranho e não sei explicar porquê, mas gosto de receber cartas e mantive durante algo tempo, mesmo já na era do e-mail, contacto com alguns amigos através deste meio. Com o passar do tempo, e com a adopção de cada vez mais formas de comunicação via internet, o correio deixou de fazer sentido, mas recentemente descobri uma iniciativa que através, precisamente, da internet, reacendeu de alguma forma esse gostinho pelo correio. Chama-se Postcrossing e consiste numa premissa simples: troca aleatória de postais.
Registamo-nos, pedimos uma morada e enviamos um postal para um pessoa que pode morar a 100 ou a 10000 kms de distância. Just like that. Depois de recebido, a nossa morada passa a estar disponível para um outro user nos enviar um postal, que recebemos sem que haja qualquer aviso prévio. Acordamos um dia de manhã e temos um postal de Cuba ou da Nova Zelândia na caixa do correio. Ainda não me aconteceu, mas pode estar para breve. Aconselho vivamente a todos os que tenham um fraquinho por correio tradicional a darem uma olhadela aqui. De referir que este projecto foi criado por um português cujo objectivo era a troca de postais dentro de nosso jardim à beira-mar plantado, mas que acabou por alargar as fronteiras do mesmo face ao seu sucesso. Em Março passou-se a incrível barreira de 4 milhões de postais trocados. Nada mal... :)


30 março 2010

Um fotógrafo amador a 35 km de altitude

Robert Harrison é um entusiasta espacial com muito talento e imaginação. Com um orçamento ligeiramente superior a 500 euros, ele colocou uma câmara digital (usada, comprada no eBay) num balão metereológico, ligou-a a um micro computador e juntou-lhes um pára-quedas e um localizador GPS para recuperar a câmara. O resultado podem vê-lo abaixo e no Flickr.






16 março 2010

I'm gonna burn in hell!

If liking Stephen Lynch's music won't get me to hell, then NOTHING will! (thanks for the one way ticket, Ulla)



15 março 2010

Curioso paradoxo




Curiosas as cambalhotas desta vida. Ainda não há muito tempo alarmava-se o PSD pela falta de liberdade de expressão e pela censura exercida pelo Governo e seus compinchas. Isto vindo de um partido cuja líder havia dito que gostava de suspender a democracia por 6 meses já era algo de paradoxal, mas o que sucedeu este fim-de-semana no congresso do PSD destrói por completo a legitimidade dos sociais-democratas em lutar pela "perdida" liberdade de expressão. Confesso que ainda estou perplexo não apenas pela ideia em si mas pela unanimidade que gerou na cúpula do partido (contra a mesma :o). Por estas e por outras é que sondagem após sondagem o PS volta a ganhar terreno ao maior partido da oposição. Pela sua representatividade e por ser um dos dois únicos partidos capazes de formar governo, o PSD e os seus dirigentes deveriam ter um pouco mais de bom senso na gestão da sua casa. Como é que poderei confiar num governo formado por pessoas que acham que é perfeitamente legítimo calar os seus apoiantes? Que garantias terei eu que chegados ao poder não tentarão fazer o mesmo à população em geral? Mais: se não são capazes de se governar por forma a manter os seus próprios militantes satisfeitos e afastarem as suas críticas, como poderão serem capazes de governar o país? Não seria mais proveitoso ouvir as críticas dos militantes e tentar perceber o que está mal no partido?


Foto por zone41

25 fevereiro 2010

A doença e a cura

Já há muito que a palavra tuberculose foi riscada do nosso imaginário colectivo como uma doença real e efectivamente perigosa. O facto da doença ter desaparecido tanto do nosso imaginário como dos cabeçalhos dos jornais é algo que não consigo explicar, especialmente tendo em conta a histeria que rodeou outras doenças que na consciência colectiva das sociedades ocidentais são muito mais perigosas. O ano passado meio mundo saiu à rua com máscaras a tapar a boca com medo da nova gripe, uma doença que matou cerca de 15 mil pessoas em 2009. É alarmante, claro, mas é um número totalmente pulverizado pelas vítimas anuais da tuberculose: nada mais nada menos do que 1.77 milhões. Sim, leram bem, 1.77 MILHÕES.

Tendo em conta a disparidade dos números parece de facto algo patética a nossa reacção ao H1N1, mas o que mais me alarma é a razão pela qual tanto se fala numa e se fala tão pouco noutra. Podem dizer-me que o número de vítimas do mundo ocidental não é muito significativo, o que posso aceitar, mas há outro número que me chama a atenção: o tratamento para a estirpe mais vulgar da doença (que afecta mais de metade das pessoas que a contraem) custa 11 dólares. O tratamento inteiro. Imagino que estes medicamentos não constituem uma fatia significativa dos lucros anuais das companhias farmacêuticas, ao contrário de medicamentos para novos vírus como o H1N1. Eu sei que estou a soar a conspiracy theory, mas a forma de actuação destas empresas em África leva-me a desconfiar fortemente dos seus padrões éticos.

O facto da doença estar a evoluir, tornando-se cada vez mais resistente aos tratamentos convencionais, e estar a tornar-se cada vez mais comum nos países da Europa Ocidental, não contribui em nada para acalmar os meus receios quanto à indústria farmacêutica. Espero que o que acabei de escrever não passe de um delírio da minha fértil imaginação alimentada a cafeína (o que é o mais certo - demasiados X Files podem ter consequências nefastas) mas duvido que esta doença possa ser considerada, nos tempos mais próximos, como totalmente erradicada (como chegou a pensar-se nos anos 60). Quem quiser ler mais sobre a evolução da doença nos tempos recentes tem este artigo do EUObserver. É longo, mas vale a pena.

Foto do álbum de Leander Pretorius no Flickr.

16 fevereiro 2010

Buzz off


Quem me conhece sabe que eu sou um fã acérrimo da Google, tanto dos seus produtos como da forma como a empresa encara o mercado e os concorrentes. Não passa um dia sem que eu use uma colecção de apps da Google, começando pelo Gmail, passando pelo Reader e acabando no estaminé que estão a ler. Por isso mesmo, quando, na semana passada, anunciaram o lançamento do Buzz fiquei bastante entusiasmado. A premissa parecia interessante: uam rede social dentro do mail. Isso chegou para me aguçar o apetite, mas o entusiasmo deu rapidamente lugar à desilusão e mesmo apreensão. Em bom português, há que dizer que o Buzz é uma merda.

Começa logo pelo interface. Não há qualquer tipo de organização, não há possibilidade de colocar as fotos num local separado, os posts amontoam-se uns em cima dos outros num caos absolutamente impossível de gerir. Depois, passa pela privacidade. Ou melhor, pela falta dela. A partir do momento em que tenho o Buzz aberto no meu perfil, qualquer pessoa pode aceder a tudo o que lá coloco. Qualquer pessoa. Até no Facebook, com todos os problemas que nós conhecemos, temos formas de fechar o que queremos mostrar apenas a familiares e amigos. Para terminar, não sei quem foi o génio que se lembrou que seria uma boa ideia despejar o conteúdo do Buzz no próprio GMail. Tudo o que eu postei no Buzz (ou melhor, nos serviços que associei ao Buzz, como aqui o estaminé ou o Twitter) foi colocado também na pasta sent mail. Ora, se é um post numa rede social não é seguramente um mail, e se o quero na rede social não o quero no mail.

Creio que o Buzz revela todos os problemas que a Google tem tido com o conceito de redes sociais. O Orkut teve sucesso apenas no Brasil e o Friend Connect foi um enorme falhanço; o Buzz terá a bóia do Gmail para o manter à tona, mas duvido que seja capaz de competir com o Facebook, pelo menos para já. Acredito que a Google esteja a experimentar a integração de diferentes plataformas, por forma a podermos, no futuro, aceder a toda a informação que nos interessa num só lugar; qualquer coisa do género, Gmail+Reader+Buzz+Wave. Se resolverem o problema da privacidade e perceberem que pode haver contactos e mensagens que eu quero num lado que não quero noutro, talvez possa ser uma boa solução.

15 fevereiro 2010

Um ataque de histeria colectiva


Devo dizer que começa a preocupar-me seriamente o estado de histeria colectiva em que uma boa parte do país se encontra mergulhado, por causa da censura e falta de liberdade de opinião de que sofremos. Acho incrível a leveza com que se usa o termo censura num país que muito sofreu com a censura a doer, em que pessoas eram presas, torturadas e mesmo assassinadas por causa do que diziam. É absurdo e ofensivo para aqueles que com ela sofreram e é, acima de tudo, um insulto à memória e ao legado do 25 de Abril. Fazia bem a estas pessoas pararem um pouco para pensar no que a palavra realmente significa.

Acredito que a distância que me separa geograficamente de Portugal permite-me ter um olhar mais distanciado e poder ver com maior clareza a big picture, algo que se torna difícil quando estamos no meio do turbilhão e somos todos os dias metralhados por notícias e opiniões de um só sentido. E aqui, do outro lado da Europa, fico com a clara sensação de estarmos perante um ataque orquestrado com um único propósito: derrubar José Sócrates. O primeiro-ministro (pelo qual, já o disse e repito, não tenho particular admiração) tem sido alvo de repetidos ataques (até, imagine-se, da Presidência) que visam desgastar a sua imagem perante a opinião pública. Curiosamente, isso não o impediu de ser re-eleito e de continuar a subir nas sondagens pós-eleitorais. No entanto, a subida de tom destes ataques dos paladinos da justiça (não se esqueçam que o ponta-de-lança desta equipa é a sempre confiável Manuela Moura Guedes) tem surtido os seus efeitos e mesmo na cúpula do PS começa a falar-se, aqui e ali, na possível substituição de Sócrates.

Se isto de facto acontecer, será um enorme passo atrás na democracia portuguesa. Será a subversão do sistema, será o derrotar de um governo democraticamente eleito às mãos de um grupo de pessoas sedentas de poder e capazes de tudo para o alcançar. Estes movimentos de justiceirismo e de julgamentos na praça pública e nas capas dos jornais estão a assassinar a democracia portuguesa e o local onde a liberdade de expressão mais fielmente se apresenta: as urnas. Quando o resultado de eleições democráticas é posto em causa por notícias não legitimadas, pelo diz-que-disse, por rumores e especulações, então estamos a recuar no tempo e a entregar a política a um mundo sujo de intriga e interesseirismo, a um mundo de vale-tudo com fins pouco claros onde o resultado final será tudo menos uma democracia.

10 fevereiro 2010

Skopje, 2014

Quem acompanha o meu cantinho sabe que não sou um grande fã da arquitectura skopjana. A paisagem urbana de Skopje foi tremendamente afectada pelo terramoto de 1963 (sobre o qual podem encontrar mais informação aqui), sendo que a esmagadora maioria dos edifícios do centro da cidade foram constrídos após o terramoto, com fortes influências da típica estética comunista, com tudo o que isso tem de mau. Nos últimos anos, o actual governo e o presidente da Câmara têm feito um esforço para dar um outro aspecto à cidade, algo que é de louvar; investiu-se em projectos artísticos, contrataram-se escultores para preencher as ruas de estátuas, procurou-se embelezar a cidade. Se o esforço é de louvar, já os resultados estão longe de o ser. As estátuas são, na sua grande maioria, horríveis e sem qualquer ligação à história e cultura do país e a esmagadora maioria da população não gosta delas. Apesar disso, o projecto continuou em marcha e na semana passada foi revelado um vídeo com o restante plano, que inclui uma total remodelação da praça central e zona ribeirinha.

A reacção a este abjecto e absurdo plano de transformar Skopje em algo que não é foi pronta e quase unânime: esta não é a cidade que a população quer. Para além dos vários edifícios terem diversas influências arquitectónicas que nada têm a ver umas com as outras (e com os edifícios actuais), esta remodelação vem destruir a praça central, um dos espaços mais aprazíveis da cidade. A praça é um ponto de encontro natural entre as pessoas, proporciona uma vista lindíssima sobre as ruínas da antiga fortaleza da cidade e do rio e é também palco de diversos eventos como concertos, um feira anual de vinho, um festival de artes de rua, etc. Com este plano a praça deixará de poder albergar estes eventos que dinamizam a cidade, em prol de estátuas e estatuetas e edifícios caros e de utilidade duvidosa. Para além disso, em vez de se procurar cirar uma maior ligação da cidade ao rio, faz-se o contrário, fechando-o ainda mais com os monstros que já estão a ser construídos na margem oposta à praça. Se a isto juntarmos um custo que deverá ficar entre os 100 e os 200 milhões de euros, numa cidade que tem autocarros com mais de 40 anos, estradas totalmente destruídas, acessos limitados, hospitais a precisar de obras, edifícios públicos a cair de podres... (podia ficar aqui o dia todo...) Tenho pena de dizer isto da cidade onde vivo, mas a verdade é que Skopje fica cada vez mais feia, de dia para dia...

02 fevereiro 2010

Crespices

Se calhar é a distância que me está a deturpar a visão (afinal de contas, eu vejo mal ao longe), se calhar é o diabo da mania de questionar as coisas e de pensar um pouco antes de aceitar aquilo que me dão a comer, mas acho esta polémica em volta da suposta censura a Mário Crespo uma verdadeira palhaçada. Pode ser só de mim, mas a história que o jornalista da SIC Notícias conta no seu famoso artigo de opinião está muito, mas mesmo muito mal contada. Custa-me a acreditar que Sócrates fosse burro (não há outra palavra) ao ponto de vociferar tamanha patacoada em voz alta num local público, para quem o quisesse ouvir. Depois de toda a polémica que rodeou a saída de Manuel Moura Guedes da TVI, cometer um erro destes vai para lá da estupidez; seria coisa para estar perto do suicídio político. Como não tomo Sócrates por burro, nem acredito que ele tenha vontade de deixar a política, só posso assumir que Crespo está, pelo menos, a contar meias verdades.

Depois, o veterano jornalista que cresci a admirar, vem acusar o jornal para o qual escreve de o censurar, por se ter recusado a publicar o artigo. Parece que o estou a ouvir com voz de Manuel Triste, à la Contra-Informação: "A mim ninguém me cala!". A mim parece-me apenas natural que um editor de jornal, perante uma tão recambolesca e ridícula história, se tenha recusado a comprar uma guerra, perdida à partida, com o Governo. De imediato saltaram à praça pública os milhentos paladinos da justiça que pululam pelo nosso país, defendendo o direito a falar de Mário Crespo. Ora, por esta hora, já o seu texto estava espalhado por essa rede fora; se isto é calar o homem, imagino quando o deixarem falar... Estranhamente, nenhum destes justiceiros de encomenda se preocupou em questionar o que disse Crespo, ou em ouvir a outra metade da história. Pormenores.

Quem me conhece sabe que eu não sou um fã do primeiro-ministro, mas admiro-lhe a capacidade de resistência a ataques pessoais, que, diga-se, têm sido uma constante desde que chegou ao poder, e com uma intensidade cada vez maior com o passar do tempo. É um sintoma do estado em que se encontra a oposição em Portugal: à falta de ideias e alternativas viáveis para o país, procura-se derrotar o poder pelo cansaço do rumor e do boato, na mais baixa e suja variante da política, a que chamo de bota-abaixismo. Quanto mais a oposição bate nesta tecla, mais esta torrente de notícias que vem a público contra Sócrates me parece encomendada, numa senda de justiceirismo (não confundir com justiça) que tanto agrada à populaça. Eu sei que pensar é uma chatice e a maior parte das pessoas não quer saber (daí o sucesso dos tablóides e de coisas como o Jornal de Sexta) mas custa-me ver como o país se afunda e chafurda na sua própria lamice em vez de se preocupar em levantar a cabeça e trabalhar para um futuro melhor. É pedir demais, eu sei, mas, caramba, um homem pode sonhar, não pode?

22 janeiro 2010

No smoking, please

Pouco antes de vir para a Macedónia pela primeira vez encontrei-me com um Português que havia estado cá alguns meses antes e que me deu algumas dicas sobre o país e as suas gentes. E uma das coisas mais acertadas que ele me disse foi que a Macedónia era um país com uma vincada cultura de café e tabaco. Isto é algo que mesmo um turista acabado de chegar ao país constata facilmente: os cafés estão constantemente cheios e a maior parte das pessoas que os enchem são fumadores. Enquanto que o café é uma herança dos 500 anos de ocupação otomana, já o tabaco tem raízes mais profundas, visto que é uma das principais produções nacionais. É tão importante que está mesmo presente no escudo nacional. Posto isto, e tendo em conta que o país tinha já uma lei que obrigava todos os espaços públicos a terem áreas específicas para fumadores e não-fumadores, foi com alguma surpresa que se assistiu à homolgação de uma nova lei que bane por completo a possibilidade de se fumar num espaço público fechado.
Naturalmente, os donos de restaurantes e cafés manifestaram-se contra a lei, alegando que muitas pessoas deixarão de ir ao café com a mesma regularidade se não puder fumar. As manifestações destes empresários não foram muito agressivas mas as suas críticas não cairam bem ao Governo e à Câmara de Skopje, que de imediato retaliaram. A maior parte dos cafés do centro de Skopje aproveitaram os passeios (em zonas pedonais, portanto, bastante alargados) para montarem as suas esplanadas, mas fizeram-no sem a devida autorização das autoridades, embora com a sua conivência. A troco de assobiarem para o lado, os políticos esperavam silêncio e obediência (uma prática comum na política cá do burgo). Curiosa coincidência, quando os donos destes cafés levantaram a voz contra a nova lei do tabaco, a Câmara de Skopje decidiu avançar para a remoção dos espaços das esplanadas de Skopje.


A esplanada do Café del Fufo, na praça central de Skopje

Não coloco em causa a justeza da decisão da Câmara; os donos destes cafés retiravam lucro de um espaço público sem nada pagarem em troca. Peca, apenas, por tardia. O que me aborrece, naturalmente, são estes jogos sujos e politiquices baratas, da lógica de uma mão lava a outra e o contribuinte que se lixe. Mais: a Câmara avançou para a remoção destes espaços sem aviso prévio e sem dar a possibilidade aos proprietários de chegarem a acordo para a utilização dos mesmo com a Câmara, como manda a lei. Com o tempo que levo por cá este tipo de coisas já não me espanta, já sei bem o que a casa gasta, mas enerva-me ver o país nas mãos de pessoas sem escrúpulos, que olham para todas as situações apenas do ponto de vista do benefício pessoal e que vão, dia após dia, enterrando o país um pouco mais na lamice dos jogos de poder que são, no fundo, a única coisa que estes políticos sabem fazer.

17 janeiro 2010

Stranger in a familiar land


Estive de férias. Férias do trabalho, do corre-corre, do não ter tempo pra nada e até, imagine-se, da net, do Twitter, dos blogs. Senti-me desligado do mundo, mais do que gostaria (o que só vem provar a minha dependência cibernética para me manter informado) mas fez-me bem desligar a tomada. E fez-me bem voltar a casa, voltar aos rostos familiares, às paredes e corredores e divisões que conheço tão bem como me conheço a mim. Não sou muito apegado a este tipo de coisas e não coloco âncoras a mim próprio mas depois de ano e meio foi muito bom voltar.

No entanto, e tal como das outras vezes em que voltei depois de longas ausências, voltei a ter uma sensação estranha de já não pertencer àquele mundo. Tudo o que existe neste mundo é-me familiar, menos eu próprio. Como um puzzle em que a imagem que aparece na peça é precisamente a que falta, mas a peça não encaixa porque a forma não é a correcta. Basicamente, encontro-me num ponto em que vivo num constante choque cultural interior e tenho a sensação de que já não sei sentir-me em casa. Não sou de lá, mas de certa forma também já não sou de cá.

06 dezembro 2009

History in the making

É um pouco estranho sentir que se faz parte da História, mesmo que uma parte pequenina, e que se está a viver um momento verdadeiramente histórico, mas é assim que me sinto neste momento. As últimas semanas foram vividas com uma enorme intensidade na Macedónia, e não é para menos. Para além de finalmente ter desaparecido a necessidade de obter vistos para viagens inferiores a 90 dias para o espaço Schnegen, permitindo que os Macedónios possam, finalmente, viajar pela Europa sem terem de se sujeitar a um longo, caro, penoso e, bastas vezes, humilhante processo para obter o autocolante no passaporte, a Macedónia deu um passo enorme no processo de adesão à UE, ao obter a recomendação da Comissão Europeia para que se iniciem as negociações entre as duas partes. Momento histórico, para o qual podemos dizer, com uma ponta de orgulho, que fomos contribuindo com o duro trabalho de divulgação de informação e pressão sobre os agentes políticos envolvidos no processo. Suamos as estopinhas, mas valeu a pena.

O Sol de Vergina, símbolo do Império Macedónio

Naturalmente, esta recomendação fez com que o nosso trabalho aumentasse de volume, o que em parte (juntamente com outras coisas de que espero falar-vos ainda hoje) justifica a minha ausência dos posts. É que esta recomendação não passa disso mesmo e agora depende dos Estados-Membro seguir essa recomendação ou não. Amanhã, os Chefes de Estado e de Governo dos 27 vão reunir-se para decidir se o irão fazer ou não, sendo que paira sobre essa reunião a sombra da Cimeira de Bucareste. Passo a explicar: em Abril de 2008 a Macedónia apresentou-se nessa cimeira da NATO com a candidatura à organização, mas a sua entrada foi vetada pela Grécia, por causa da eterna questão do nome. Agora, é possível que isso venha a acontecer de novo.

O homem da discórdia: Alexandre o Grande

Seria triste se tal acontecesse, ver de novo o progresso do país emperrado por esta aberração de problema diplomático, mas é, ao que parece, o mais provável. A Macedónia e os Macedónios precisam que os processos de adesão às instituições internacionais se dê o mais rapidamente possível, mas os políticos locais, cegos pela popularidade que lhes dá bater o pé à Grécia, estão-se nas tintas para isso. Quem sofre, claro, são as pessoas, que iludidas pelo poder que tem o país ao não ceder às pretensões dos Gregos e agarradas a um pedaço de História com mais de 2 milénios, não parece sequer perceber o que está, aqui, em jogo. Amanhã poderia ser um ponto de viragem para o país, o início de uma nova era, mas dada a casmurrice de um país que vive mais de um passado distante do que do seu presente e futuro ficará, à partida, tudo na mesma. Dói trabalhar para o futuro quando toda a gente à nossa volta vive do passado, mas não poderemos baixar os braços só porque os outros o fazem. É mais duro assim? É, sem dúvida, mas quando os resultados aparecem podemos sempre orgulhar-nos de ter estado sempre na linha da frente.

11 novembro 2009

Castanhas e vinho

Hoje é dia de festa lá em casa! Vai um copinho? :D



E já agora uma fartura, para adoçar a boca!


Castanhas e vinho ainda arranjo por aqui, pois claro, mas tenho cá umas saudades das farturas... :(

24 outubro 2009

Portugal dos pequenitos

Estar longe de casa dá-nos a possibilidade de olharmos para o nosso ambiente natal de uma forma diferente, e leva-nos a apreciar coisas que antes nos passavam despercebidas. Estando longe de Portugal, aprendi a apreciar pequenos pormenores, deliciosos, que antes, por serem rotina, me passavam ao lado. Aprende-se a apreciar de forma diferente coisas grandes e pequenas; a distância torna-nos eternos enamorados daquilo que não podemos ter. Dito por outras palavras: a distância enamorou-me de Portugal.
Infelizmente todos os amores têm momentos de dúvida e angústia, e este não é excepção. O último par de semanas trouxe ao de cima algumas das coisas de que menos gosto no nosso país, aquilo a que chamo Portugal dos pequenitos, um país mesquinho, sombrio, da crítica (ou pior, do insulto) fácil, que ainda não saiu das grutas onde Viriato refugiava o seu povo dos invasores Romanos. É o país onde uma pessoa não pode ter uma opinião contrária, onde o debate se faz com paredes, onde somos ostracizados por pensar de forma diferente. É um país preso à mentalidade que o reinou durante séculos, fosse nos tempos das monarquias absolutistas ou das ditaduras fascistas.
Vem isto a propósito, está o leitor a adivinhar, da polémica em volta das declarações de Saramago sobre a Bíblia. Não escrevo isto por achar que ele está coberto de razão (apesar de achar que tem muita razão naquilo que disse) mas por achar que o ataque que lhe foi dirigido foi seco, brutal e sem o mínimo de respeito; respeito que era, curiosamente, o que os seus opositores lhe exigiam sobre a intocável - em Portugal se não é pelo menos parece - instituição que é a Igreja Católica. Este ataque foi de tal forma cego que muitas pessoas enxovalharam o novo romance do escritor sem sequer lhe pôr os olhos em cima, e muitas outras, incluindo, imagine-se, um eurodeputado!, exigiram (como se isso lhes competisse) que o escritor cumprisse a ameaça de renunciar à nacionalidade portuguesa. Depois do que o Estado Português lhe fez em 1991 admiro-o por ainda cá pôr os pés e dar alguma importância a um país e sociedade que o tratam desta forma.
Ao ler o rol de alarvidades que se escreve hoje em dia em resposta a Saramago, não consigo deixar de esboçar um sorriso ao lembrar-me de um certo inquisidor humorístico...
O artista é um bom artista; não havia nexexidade. Vamos lá a continuar, mas com juizínho...
Eles andam aí, os Diáconos Remédios...

A Fábrica de Letras


Já fazia falta uma fábrica de letras! Fazia? perguntam vocês. Fazia, pois. Vejam lá aqui a ver se não fazia.
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